É difícil encaixar Don Tapscott em uma definição. Cientista com formação em psicologia e em estatística, e especialização em metodologias de pesquisa, o escritor e consultor canadense de 70 anos pode ser considerado um apóstolo de novas tecnologias. Tapscott começou a escrever sobre o assunto ainda nos anos 1980, e, em 1995, publicou A Economia Digital em que tratava do impacto de uma novidade chamada internet no mundo corporativo. O livro tornou Tapscott um nome conhecido. Duas décadas mais tarde, ele voltou às manchetes, com a publicação de Blockchain Revolution, escrito em parceria com seu filho Alex. Nesse livro, lançado no Brasil no ano passado, ele trata da linguagem criptografada que sustenta o lançamento de moedas virtuais, como o Bitcoin. O autor explica como essa tecnologia de redes de informação descentralizadas pode mudar, de forma definitiva, a maneira como fazemos negócios. Tapscott esteve no Brasil para o Campus Party na primeira semana de fevereiro e falou com a DINHEIRO em um intervalo de seus compromissos. Eis os principais trechos da conversa:

DINHEIRO – A forte volatilidade de preços da moeda virtual Bitcoin assustou investidores ao redor do mundo. Após chegar a quase US$ 20 mil em meados de dezembro, as cotações recuaram à metade disso no início de fevereiro. Essa baixa indica um fim para as moedas virtuais?

DON TAPSCOTT – Não, longe disso. Todo mundo prestou atenção às fortes oscilações nos preços do Bitcoin, mas ele é apenas uma das diversas criptomoedas. O Bitcoin é a moeda mais negociada, mas há mais de 1.300 delas em circulação, e surgem novas a cada dia. As moedas virtuais são apenas a face mais visível de todo o movimento do blockchain. Essa, sim, é uma tecnologia totalmente disruptiva.

DINHEIRO – Por quê?

TAPSCOTT – Há 40 anos, quando se começou a falar a sério da internet, a ideia era criar uma rede de informação descentralizada. O primeiro objetivo disso era militar: desenvolver uma rede que sobrevivesse a um ataque inimigo ao computador central. Deu tão certo que foi muito além das propostas iniciais. Hoje, a internet é a maneira mais eficiente de compartilhar informação de maneira rápida. A proposta do blockchain é diferente. Em vez de uma internet de informação, teremos uma internet de valor. Será possível transacionar tudo: dinheiro, música, arte, votos, créditos de carbono. Tudo poderá ser negociado sem intermediários, sem termos de pagar tarifas para bancos, administradoras de cartão de crédito ou governos. Essas transações são seguras, rápidas e imunes à fraude, pois tudo o que ocorre fica registrado para sempre no bloco de informações. Isso representa uma enorme mudança em relação à forma como temos feito negócios nos últimos séculos.

DINHEIRO – Quais os impactos desse movimento?

TAPSCOTT – Os impactos sobre a economia como a conhecemos são inúmeros. Vamos pensar em apenas no quanto as remessas internacionais podem mudar. A necessidade de enviar dinheiro além das fronteiras cresce com a globalização. Suponha que uma pessoa de origem africana está trabalhando na Europa, e precisa mandar parte do salário para a família em seu país natal. Se simplesmente colocar o dinheiro em um envelope e enviar pelo correio, essa pessoa está correndo um risco enorme de roubo. Não há confiança nos intermediários. Para evitar esse risco, as pessoas recorrem a empresas de remessas de dinheiro. Elas são confiáveis, garantem a segurança no envio e no recebimento, mas cobram uma tarifa elevada para prestar esse serviço. Por meio do blockchain, é possível enviar a moeda sem possibilidade de fraude, e sem os problemas da taxa de câmbio. A segurança deixaria de estar no intermediário, e passaria para a criptografia, que é muito mais barata. É o que eu chamo de protocolo de confiança. A confiança será construída sobre toda a rede de informação, algo que nunca ocorreu antes na história.

DINHEIRO – Por que o blockchain é imune à fraude?

TAPSCOTT – Se alguém mal-intencionado quiser fraudar o blockchain, ele terá de mudar todas as milhões de transações que estão registradas em milhares de computadores distribuídos por toda a rede. Para quebrar isso, será necessário uma capacidade de processamento computacional superior ao total que existe no mundo hoje. Na prática, é impossível conseguir essa alteração.

DINHEIRO – E essa nova tecnologia serve apenas para transferir dinheiro?

TAPSCOTT – Não. A principal vantagem é que podemos acoplar inteligência ao processo, por meio da criação dos chamados smart contracts [contratos inteligentes]. Esse recurso vai permitir uma facilidade e uma agilidade inéditas nos negócios. Por isso, no Japão, o governo quer que as moedas virtuais circulem tanto quanto o iene já em 2020. E também há empresas apostando nisso.

DINHEIRO – Empresas como a Kodak, que anunciou que vai lançar sua própria criptomoeda?

TAPSCOTT – Sim, esse é um bom exemplo. A criptomoeda da Kodak vai permitir que os profissionais que trabalham com imagens possam ser remunerados de maneira mais justa. Suponha que um fotógrafo produza uma imagem que será amplamente reproduzida na mídia, ou usada em publicidade. Hoje, esse fotógrafo tem de vender os direitos para um intermediário, que vai cobrar os jornais ou as agências de propaganda, e dividir parte dos ganhos com o profissional que fez a imagem. Com um smart contract, as informações dos direitos de propriedade da imagem ficam gravadas no blockchain. Quando alguém pagar para usar a imagem, a parcela de cada um – do fotógrafo, do intermediário, e eventualmente os impostos devidos ao governo – serão transferidos automaticamente, por uma fração do custo atual, e sem demora. Isso vai tornar o mercado de produtos intelectuais muito mais líquido e muito mais ágil. Pense no impacto no mercado de imagens, na música e na propriedade intelectual em geral.

DINHEIRO – E o papel dos reguladores nisso? Vários banqueiros centrais vêm advertindo que as moedas virtuais são uma bolha, inclusive no Brasil, e estudam leis para controlar esse mercado. Isso pode afetar o desenvolvimento?

TAPSCOTT – Gosto de explicar isso citando o exemplo da Lei da Bandeira Vermelha. Os primeiros automóveis surgiram em meados do século XIX. Em 1865, o Parlamento inglês aprovou uma lei para garantir a segurança dos pedestres. Essa lei exigia que todo automóvel que circulasse pelas ruas fosse precedido por um pedestre, que levaria uma bandeira vermelha para avisar as pessoas que o carro estava se aproximando. Se o carro trafegasse à noite, seria preciso levar uma lanterna. Ou seja, a velocidade máxima que o carro poderia alcançar seria a do pedestre caminhando à frente dele. A lei foi revogada pouco depois, mas é um bom exemplo de como a tentativa governamental de regular algo novo pode levar a absurdos. Os governos são as entidades mais poderosas do mundo. Podem mobilizar recursos praticamente infinitos, começando pelo poder militar. Mas os governantes são como todas as pessoas. Nós tememos o que não entendemos. Daí podermos esperar mais algumas leis de bandeira vermelha no futuro próximo.

DINHEIRO – Isso se aplica à decisão recente da Coreia, de limitar os negócios com Bitcoin, e da China, que já proibiu os Initial Coin Offerings (ICOs), e pode proibir a mineração e os negócios com essas moedas, no início de fevereiro?

TAPSCOTT – Sim. Essas medidas acabam se tornando inócuas. Proibir os ICOs e tornar as bolsas ilegais é inútil, atrasa o desenvolvimento tecnológico. Estrangular a fonte de inovação é algo capaz de afetar a economia por décadas. Como ocorre com a internet, as pessoas sempre encontrarão novas maneiras de ter acesso à informação. Assim, se essas proibições de minerar e negociar moedas virtuais forem adotadas na prática, os investidores chineses simplesmente vão transferir seus negócios para outro lugar.

DINHEIRO – Falando especificamente sobre o Brasil. As criptomoedas são muito eficientes no caso da produção intelectual, mas como elas podem ajudar um país cuja economia é fortemente apoiada em commodities agropecuárias e minerais?

TAPSCOTT – O impacto do blockchain sobre a economia brasileira será imenso. Todo país produtor de commodities está inserido nas cadeias de suprimentos globais. O uso do blockchain tornará essa produção mensurável, controlável e rastreável de maneira inédita. Será possível ao comprador saber, em tempo real, se determinado produto oferecido ao mercado cumpriu as exigências de impedir trabalho escravo ou preservar o meio ambiente. Cada unidade da commodity terá uma identificação, um token. Chamamos esse processo de tokenização. O melhor exemplo não é brasileiro, mas é didático: a exploração de diamantes na África. Ela provoca guerras, violência, devastação ambiental, miséria. Com o blockchain, será possível rastrear cada um dos diamantes produzidos, desde a extração até a venda do produto acabado. Esse mesmo princípio vale para todas as commodities. Não podemos nos esquecer que as cadeias de valor ao redor do mundo movimentaram US$ 64 trilhões em 2016. E isso só para transações internacionais, que têm registros mais precisos. Se contarmos movimentações locais ou regionais, o número é muito maior.

DINHEIRO – Quais mercados poderiam ser melhorados?

TAPSCOTT – O mercado de créditos de carbono é um bom exemplo. Empresas que elevam a pegada de carbono e operam em países desenvolvidos poderiam comprar, em tempo real, créditos de neutralização de carbono produzidos por empreendedores em países menos desenvolvidos. Sem intermediários e com transparência. Só isso permitiria uma alteração muito grande na distribuição da riqueza global.

DINHEIRO – Isso deverá atrair muito dinheiro novo, não?

TAPSCOTT – Eu escrevi o livro Blockchain Revolution em 2016. Nele, eu previ que, em cinco anos, a indústria de capital de risco estaria irreconhecível. Acho que eu estava errado, será antes disso. Em 2017, as ICOs, que são as vendas de moedas virtuais, movimentaram US$ 4 bilhões, e isso foi conseguido sem a participação dos bancos. É uma nova maneira de captar dinheiro para companhias iniciantes, e eu acho que, muito em breve, o dinheiro captado por meio de ICO vai superar a movimentação dos investimentos tradicionais de capital de risco.

Fonte: ISTOÉ DINHEIRO

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