No combate ao sedentarismo, empresas estimulam a prática de atividade física no alto escalão, inclusive com remuneração variável

As grandes companhias estão botando seus executivos para correr. Quase que literalmente: um levantamento com 2.131 trabalhadores, de dez capitais brasileiras e cidades do interior de São Paulo, identificou que a maior parte (51%) dos colaboradores com cargos superiores trabalham em empresas que estimulam a prática de atividades físicas. O percentual é superior ao registrado nas duas outras categorias pesquisadas. Entre os funcionários com cargo inicial, apenas 28% se disseram estimulados pela companhia a desenvolver esse tipo de atividade. Já entre os empregados de nível intermediário a proporção é de 40%.

Realizado pelo Conectaí, braço online do Ibope, o estudo foi encomendado pela administradora de cartões de benefícios Alelo, dentro de uma estratégia de fidelização da clientela que passa pelo estímulo aos hábitos saudáveis. “No total, 61% dos entrevistados atestaram que as empresas onde trabalham não estimulam a prática de esportes”, revela Ellen Muneratti, diretora Comercial, de Marketing e Produtos da Alelo. O desafio — sustenta Ellen — é mudar comportamentos sedentários e estimular o consumo de alimentos saudáveis dentro da rotina corporativa. “Faltam novidades. Conheço empresas que criaram grupos de corrida, mas a adesão dos funcionários é baixíssima”, afirma ela.

Decidido a reforçar a importância dos hábitos saudáveis entre seus executivos, o Grupo Algar — que reúne empresas dos setores agrícola, de telecomunicações, turismo e serviços — instituiu um programa que atrela parte da remuneração variável a metas anuais de saúde. Criado em 2002, o PDI da Saúde ganhou novos elementos ao longo do ano e atualmente inclui avaliações clínicas (exames médicos), físicas (flexibilidade, circunferência abdominal, etc.), nutricionais e emocionais (psicológicas). Descritas num “plano de ação”, as metas são acordadas entre os executivos e os profissionais de saúde e preparação física. “A meta pode ser, por exemplo, perder peso ou diminuir o colesterol”, explica Elizabeth Amaral, diretora-superintendente da UniAlgar, universidade corporativa do grupo. “Se não cumprir os objetivos, o executivo pode perder 10% da remuneração variável”. A avaliação final dos resultados, que determina se as metas foram cumpridas, não se resume a uma análise pura dos números. Também são levadas em conta situações extremas capazes de interferir no cumprimento dos objetivos, como por exemplo a morte de um familiar.

Em 2013, dos 250 executivos do grupo, 15 não atingiram a meta, o que representa 6% do total. “No ano passado, 44% dos nossos executivos eram sedentários. Neste ano, o percentual caiu dez pontos percentuais, para 32%”, conta Elizabeth. Doze anos atrás, quando o programa começou, o percentual de sedentários nesse nível hierárquico era de 70%.
Sócio-diretor da consultoria Kienbaum no país, Axel Werner correlaciona a busca pelo aumento de produtividade na economia brasileira com a contratação pelas empresas de profissionais capazes de render o máximo mental e fisicamente. “Dentro de um contexto mais amplo, produtividade tem a ver com saúde e motivação”, resume. Mesmo frisando que nenhuma empresa vai contratar um executivo simplesmente por que ele consegue correr maratonas, Werner argumenta que a prática de uma atividade esportiva pode fazer diferença num processo de seleção. “Para determinadas empresas e cargos específicos, pode ser um complemento. A energia é muitas vezes avaliada como um fator positivo”, pondera o consultor.

Máquina e carrinho com itens saudáveis

A maioria dos brasileiros que fazem refeições fora de casa acreditam que estão consumindo alimentos saudáveis, mas a realidade tem pouco a ver com esta percepção positiva. Do universo pesquisado no levantamento da Alelo, 64% fazem refeições fora de casa. Dentro desse grupo, 56% consideram saudáveis suas refeições na rua e 8%, muito saudáveis. “Quarenta e sete por cento das empresas não oferecem qualquer opção de alimentação, nem cartão, nem restaurante próprio”, resume Ellen Muneratti. “Isso obriga as pessoas a optar por refeições rápidas, com muito carboidrato, açúcar, gordura.”

Os critérios para escolha de um restaurante passam mais pela proximidade do local de trabalho e pela limpeza. A presença de alimentos saudáveis no cardápio foi tratada como uma questão menor, mencionada apenas por uma pequena parte dos entrevistados. Mesmo assim, o trabalhador brasileiro está disposto a mudar. “O estudo mostra que 72% das pessoas mudariam seus hábitos alimentares para ter mais saúde”, diz Ellen.

Para atender este tipo de demanda, a Alelo instalou recentemente sua primeira vending machine (máquina de venda automática de produtos) com produtos saudáveis em um cliente. No primeiro semestre deste ano, a empresa começou a comercializar frutas, iogurtes e outros itens num carrinho que percorre as companhias. A empresa também oferece aos clientes uma máquina de sucos naturais, que utiliza polpa de frutas para preparar a bebida.

“Vimos que não bastava fazer recomendações de consumo de produtos saudáveis. Não era só uma questão de conteúdo mas de opções para as pessoas no ambiente de trabalho, além do refrigerante e do café”, ressalta a diretora Comercial, de Marketing e Produtos da Alelo.

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