Ideias criativas e promissoras, aliadas a confiança, planejamento e persistência, podem compensar o orçamento escasso na hora de transformar os sonhos em um empreendimento

Alguns milhares de reais na conta podem ser uma segurança para emergências, a entrada para um imóvel, a matrícula em um curso – ou o passaporte para uma reviravolta na carreira. Obstáculo para muitos aspirantes a empreendedores, o dinheiro necessário para criar um negócio pode ser menor do que se imagina.

Na Feira do Empreendedor, que termina neste domingo, na Fiergs, em Porto Alegre, um rol de empresas mostra que é possível, sim, montar negócios prósperos com investimentos modestos. Com R$ 5 mil na conta, um casal de artesãos comprou máquinas usadas e deu início a uma oficina de brinquedos terapêuticos, de olho em uma lacuna no mercado. Um empregado de informática pediu as contas e persistiu por anos em um negócio até começar a lucrar.

– O tamanho do investimento não é a principal condição para a nova empresa decolar. O segredo está na ideia do negócio e em como se planeja os próximos passos – explica Roselaine Monteiro Moraes, técnica do Sebrae/RS.

Nos últimos anos, os brasileiros se voltaram ao mundo do empreendedorismo – um terço da população toca seu próprio negócio, conforme o Sebrae, e já somos o terceiro país com maior número de empresários.

– A maioria das novas empresas é de micro ou pequeno portes, muitas vezes tocadas por quem nunca teve um negócio – afirma Raphael Morales, coordenador da Fadergs Júnior, projeto para formar empreendedores.

O aporte pode não determinar sucesso ou fracasso, mas é um limitador. Pesquisa do Serviço de Proteção ao Crédito (SPC) mostra que 77% dos empreendedores bancam o negócio do próprio bolso – apenas 7% procuram crédito. Por isso, muitas vezes a opção é por modelos que estejam na crista da onda, na tentativa de reduzir riscos e gastos com complexas pesquisas de mercado.

– Um grande aliado para novos empreendedores é a internet, que possibilita lançar negócios com custos iniciais baixos e alto poder de difusão – explica Morales.

Online ou offline, a onda recente é de serviços para a nova classe média, como salões de beleza e lanchonetes. Para os marinheiros de primeira viagem, uma opção recorrente são as franquias, com as quais se segue um modelo que já funcionou com outros franqueados.

A Feira do Empreendedor abre das 14h às 21h e é preciso doar um quilo de alimento para visitar.

Seu apetite, nosso negócio

Amante de comidas saudáveis, Lucas Choairi acordou certo dia com uma dúvida e uma ideia na cabeça: por que não havia em Porto Alegre uma telentrega de saladas, sanduíches e vitaminas naturebas? As pessoas se interessariam em comprar, se existisse? Ele gostava de cozinhar, mas nunca havia vendido para ninguém. Chamou a namorada, Cristine Souza, e matutaram juntos. Acharam que valia o risco.

– Era um serviço que eu sentia falta, e eu não devia estar sozinho – diz Lucas.

Convidou a mãe para ser sócia: ele entrava com a ideia do negócio, e ela, com o capital: R$ 40 mil. Em poucas semanas, compraram uma pequena cozinha industrial e montaram um site, com cardápio e canal para encomendas. Uma empresa enxuta, só com o principal para fazer a comida chegar ao cliente.

– Não tínhamos dinheiro para arriscar. Mesmo assim, cometemos alguns erros, como anunciar em meios que não trouxeram retorno e comprar alguns equipamentos de cozinha que não nos serviram. Mas conseguimos enxergar essas falhas e aprender com elas – lembra Lucas.

Concentraram a verba do marketing em panfletos, que distribuíam na zona sul de Porto Alegre, onde era a sede da empresa. Mesmo assim, os pedidos não vinham. Ampliaram as fronteiras da divulgação para os bairros Menino Deus e Cidade Baixa. E daí a coisa começou a andar.

– Percebemos que lá estava o mercado que perseguíamos. Migramos nossa sede para o bairro Rio Branco, para ficar mais perto dos clientes – conta o empresário.

Três anos depois de nascer, a Mix Natural se prepara para um passo audacioso: instalar um restaurante, ingressando em um mercado com gigantes como Subway e Saúde no Copo. Ainda neste ano, a unidade deve abrir as portas – possivelmente com a participação de um sócio.

Adeus, vida de empregado

Uma empresa robusta pode nascer de um investimento muito baixo – precisamente, modestos R$ 5 mil. Cansado de “dar dinheiro para os outros”, como gosta de dizer, Carlos Buavas, técnico em informática, decidiu empreender. Pediu as contas no emprego, raspou o dinheiro da poupança e comprou peças e acessórios para montar uma lanhouse. Os móveis, foi buscar em briques e em uma loja que estava fechando.

– Abri sem planejar muito. Até tinha bom movimento no início, mas nunca fechava o mês no lucro. Depois de seis meses, pensei em desistir – desabafa.

Tentou montar uma oficina de computadores nos fundos da loja, para engordar o caixa. Mas a penúria continuava. Como em uma fábula, a sorte literalmente bateu na sua porta: um consultor do programa Negócio a Negócio, uma parceria entre Sebrae e Fadergs, se oferecia para ajudar a organizar a empresa e encontrar o ralo por onde fugia o dinheiro do negócio.

– Comecei a colocar custos e receitas em planilhas. Fiz o perfil do meu cliente, entendi o que ele queria e o que eu poderia cobrar. Foi a salvação – admite.

Um ano e oito meses depois de entrar nos eixos, a Infotrônica prepara a expansão. Na segunda-feira, deixa a saleta onde nasceu e vai para uma loja espaçosa em Canoas, com mais dois funcionários. Terá, ainda, venda de equipamentos de informática. O investimento foi de R$ 25 mil – todo realizado com capital próprio, fatia do faturamento guardada religiosamente para garantir o crescimento da empresa.

– A estratégia foi trazer planejamento ao negócio. Isso aumenta muito as chances de funcionar – ensina Buavas.

O casal Blauth não desiste de sua fábrica de brinquedos terapêuticos Foto: Lauro Alves
O casal Blauth não desiste de sua fábrica de brinquedos terapêuticos Foto: Lauro Alves

Chega de brincar

Depois de sete anos vendendo artesanatos terapêuticos – quebra-cabeças de madeira, cubos mágicos e peças em alto relevo – e de fazer um investimento que já ultrapassa R$ 60 mil em máquinas e matérias-primas, Marcos Josife Blauth e a mulher, Flávia, decidiram que chegou a hora de ganhar dinheiro. As vendas, ainda pontuais para um grupo de terapeutas e educadores, vão mirar grandes escolas do país.

– É um processo natural. Começamos conhecendo os consumidores e recebendo o reconhecimento. Agora, vamos atrás do retorno financeiro – diz Blauth.

O pulo do gato é o contato com grandes clientes: a Sol Brinquedos Terapêuticos, empresa do casal, tem articulado contratos com organizadores de torneios de jogos de tabuleiro e participado de feiras. A meta é fechar uma grande encomenda ainda neste ano.

E para atender à possível demanda, máquinas estão desembarcando na pequena oficina, em Canoas. Como o custo é alto, boa parte é usada. A solução, explicam os sócios, é buscar um investidor – na Feira do Empreendedor, mostraram o projeto para potenciais candidatos.

– Como o orçamento é curto, estamos fazendo uma coisa por vez. Começamos patenteando os brinquedos e formalizamos a empresa. Vamos crescendo aos poucos – projeta Blauth.

Para o negócio vingar, o artesão sabe que precisa conhecer o gosto dos clientes – e faz o estudo de mercado de seu próprio jeito: lê pilhas de livros de psicologia educacional para desenvolver os brinquedos que possam ser usados nas sessões. A técnica para esculpir é buscada em livros de geometria, e, claro, na prática.

Características comportamentais

Perfil traçado pelo psicólogo americano David McClelland e utilizado como base para consultorias do programa Empretec, do Sebrae.

1 Independência e autoconfiança
O empreendedor precisa acreditar que seu produto é fundamental ao cliente, ou ninguém mais acreditará.

2 Busca de oportunidade e iniciativa
Perceba as oportunidades para criar um novo negócio, e vá em frente na ideia.

3 Correr riscos calculados
Saiba o que pode dar errado, e apenas dar o passo quando estiver preparado.

4 Exigência de qualidade e eficiência
Uma empresa só vai em frente se criar produtos e serviços bons, e produzir sem desperdiçar recursos.

5 Comprometimento
Ser empreendedor é acordar cedo, trabalhar aos finais de semana e colocar o negócio em primeiro lugar.

6 Estabelecimento de metas
Saber onde se quer chegar, no curto, médio e longo prazo, em termos de lucro ou vendas.

7 Persistência
Não desistir diante das primeiras dificuldades, que sempre vão existir.

8 Planejamento e monitoramento sistemáticos
Criar uma estratégia para alcançar as metas, e acompanhar regularmente se está mais perto ou distante.

9 Persuasão e rede de contatos
É importante desenvolver o “tino” de vendedor e se preocupar em ampliar e cultivar a rede de contatos.

10 Busca de informações
É preciso estar atualizado no que ocorre no mercado e quais as tecnologias podem ser empregadas pela empresa.

Link: http://zh.clicrbs.com.br/rs/noticias/economia/noticia/2014/09/empresas-mostram-que-e-possivel-montar-um-negocio-com-pouco-investimento-4597871.html

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